Os Zombos na Tradição, na Colónia e na Independência (40)
Por Dr José Carlos de Oliveira.
Toda a memória que vai transmitir‑se, nesta secção, é fruto de recentes entrevistas (1991, 1995 e já 2007), de fotografias e de filmes
realizados, aquando da nossa prestação de serviço, durante dois anos (1960/1961), na 5ª Companhia bem como de algumas cartas e notas trocadas com familiares, nessa altura, conservadas no nosso
arquivo particular. Para a consolidação da estrutura desta secção consultámos os registos do Arquivo Histórico Militar, em 2005, e perguntámos aos responsáveis por esse mesmo serviço se possuíam
algum tipo de documentação sobre as Companhias Indígenas de Angola, desde 1950 a 1961. A resposta foi clara: “Não existe nada em arquivo”.
O que subsiste, na realidade, acerca deste assunto é muito pouco ou quase nada. Por exemplo, na História do Batalhão de Caçadores 88,
desde 15 de Maio a 16 de Outubro de 196112, encontramos, na referência da data de Setembro de 2005, registo do seguinte:
“Já em Maquela, no dia 14 de Julho num patrulhamento feito ao rio ZADI foi feito um prisioneiro que confessou ser chefe de
oitenta Lumumbistas. Seguiram‑se patrulhamentos para Luango Quimbata e Zadi; assim como o patrulhamento da vila durante toda a noite, colaborando
assim a companhia na defesa da vila em conjunto com a 5ª Companhia Indígena.”
Nenhum militar da 5ª Companhia de Caçadores Indígenas saía do quartel sem que fosse verificado o seu aprumo. Só saíam, se estivessem
impecáveis: botas engraxadas, botões reluzentes e a farda sem nódoas. Era assim que apareciam pela vila e vagueavam, pelos arredores, à procura de namoradas ou visitando a família. Às vezes,
chegavam um pouco depois do recolher mas, por norma, esses atrasos eram punidos unicamente com repreensões ou com castigos simbólicos como, por exemplo, pequenos exercícios a que os militares se
prestavam (não com submissão) com a maior dignidade. A noção de alvorada, ‘vamos lá rapaziada começar o novo dia’, era respeitada em formatura, mais ou menos, aprumada, àquela hora da
manhã (sete horas).
Sabemos como será difícil ser entendido hoje que um kuanhama (um membro de uma das etnias do sul de Angola) se pusesse em
sentido, perfeitamente aprumado (isto após a independência do Congo ex‑Belga), para honrar a bandeira portuguesa. O que talvez já se possa compreender é que os tropas assimilavam os valores
próprios da disciplina militar com orgulho.
A citação a seguir reproduzida será motivo de reflexão. Trata‑se do pensamento de Joaquim Moreira Silva Cunha, Ministro do
Ultramar (1965/1974), no seu estudoMovimentos Associativos na África Negra (1956:40,41):
“Não se pode, porém, esquecer que o contacto entre os vários grupos é o contacto entre culturas diferentes, quer dizer é, em ultima
análise, um contacto de culturas.
Este contacto produz efeitos diferentes, dos quais os mais importantes são os efeitos de transformação e os efeitos de protesto. Os
efeitos de transformação traduzem‑se na adopção recíproca de usos dos grupos em contacto. Os mais típicos, porém, são os que resultam da imitação pelos nativos primitivos dos usos dos
civilizados.
A esta imitação, que é a mais intensa e que produz a evolução cultural dos primitivos, dá‑se o nome de imitação de baixo para cima. A sua
forma extrema é a ‘assimilação’.”
A citação serve dois propósitos: primeiro e, no mínimo, é razoável admitir que o serviço militar provocou e, no bom sentido, uma mudança de
carácter nos indivíduos das diversas etnias angolanas que, em tempo de guerra ou de paz, sofreram a sua influência. Segundo, a instrução ministrada valeu‑lhes o estatuto suficiente para servirem
os valores militares debaixo da sua futura bandeira, sendo que bastantes oficiais generais, dos diferentes partidos Angolanos, foram antigos militares no regime colonial.
O facto incontornável da subversão a que os incorporados estiveram sujeitos, especialmente nas companhias indígenas, originárias dos
regimentos de infantaria de Luanda, Nova Lisboa ou Sá da Bandeira, fez com que os oriundos dos diversos grupos étnicos angolanos fossem perdendo lentamente parte desses valores, porém, e por mais
paradoxal que pareça, passaram a conviver debaixo do mesmo tecto, representantes de todas as etnias angolanas não havendo notícia de litígios referentes a questões de identidade dos diversos
sub‑grupos. Todavia, até 1961 e, mesmo depois, embora já de forma diferente, foi possível fazer com que assimilassem com gosto, qualidades, como por exemplo: a
dedicação integral ao serviço que lhes era destinado, a irrepreensível apresentação individual, o espírito de sacrifício, o gosto pelo trabalho bem executado, a satisfação do dever cumprido, o
orgulho em pertencer a um grupo e que, nas companhias indígenas, era exteriorizado, (fazendo esquecer o magríssimo pré recebido ao fim do mês) por exemplo, por
canções como uma só quadra o exemplifica:
“Oh Laurinda, oh Laurinda, não vale a pena chorar,
Tu bem sabias Laurinda, que eu ia para militar,
Que eu ia para militar, que eu ia para o regimento
oh Laurinda, oh Laurinda, não me sais do pensamento.”
Compreendemos que hoje seja dificilmente entendida a razão dos versos, mas os militares quando, duas vezes, por semana, iam em marcha
acelerada tomar banho ao rio (que distava do quartel cerca de dois quilómetros) cantavam alto e com grande satisfação, olhando pelo canto do olho, se alguma moça os via e ouvia.
De seguida, tinham lugar as aulas regimentais, onde lhes era ministrado o ensino do português escrito e falado, através da Cartilha Maternal de João de Deus (1830/1896). As
lições de aritmética e ginástica, além dos trabalhos de campo, com armamento, perfaziam o que restava do dia. Sobre a alimentação, que era vigiada com rigor satisfatório, não
se tem notícia de qualquer queixa.
Metade do armamento distribuído ao pessoal pode ser considerado ‘restos’ de carabinas ‘Enfiels’ da Primeira Guerra
Mundial. Já a outra metade, eram Mausers 7.9 da Segunda Guerra Mundial. Aos sargentos e oficiais estavam destinadas as pistolas‑metralhadoras FBP. Explicando‑nos melhor: a 120 homens de
diferentes grupos étnicos angolanos eram atribuídas carabinas; se não estamos em erro, existiam entre 3 a 4 metralhadoras ligeiras Madsen, entregues a primeiros‑cabos, europeus ou mestiços. Para
deslocações, existiam aproximadamente 5 viaturas Jeep, (de quatro lugares); quatro ‘Jeepões’ (viatura que permitia transportar 9 homens, ou seja, uma secção) e dois camiões
Dyamond, também da Segunda Guerra Mundial, que gastavam entre 100 a 150 litros de gasolina, a cada 100 quilómetros, o que dava muito jeito para justificar compras de gasolina,
quando os senhores oficiais se deslocavam à caça, nas baixas do Paza, na região do Kusso. Todo este material fazia parte das sobras da Segunda Guerra Mundial do exército americano.
Entenda‑se que tudo isto era utilizado para a vigilância de um território do tamanho de metade de Portugal continental.
Pelo que deixamos dito, parece‑nos ser razoável admitir que, entre os zombo, seja preferível aplicar o
termo assimilação utilizado por Silva Cunha, em prejuízo do termo integração, preferido por Neto (1964:20). Aqui, novamente, se tornam incontornáveis as recomendações de
Sampayo e Mello (1910:511).
“(…) Os oficiais portugueses e os graduados que comandarem indígenas não devem de limitar o seu esforço à obtenção de bons atiradores, de
soldados valentes, disciplinados e fiéis. É necessário e é possível fazer muito melhor. Em vez de simples machinas de guerra, será mil vezes mais meritório e praticamente proveitoso tornar esses
soldados em verdadeiros patriotas, substituindo‑lhes o automatismo inconsciente do próprio valor pelo estimulo sagrado ao amor da pátria, e fazer d’esses patriotas outros tantos trabalhadores
honrados e indefesos. É indispensável que os europeus estudem as línguas indígenas para melhor perscrutar a índole das populações, os costumes tradicionais e as tendências do seu espírito, mas
quando o typo de colonisação propender à assimilação politica – e é o caso da colonisação portugueza‑ não se pode deixar de generalisar
intensamente no elemento nativo a língua dos dominadores.”
Sampayo e Mello estava a ‘soprar na estopa ao pé do lume’. Em Maio de 1960, a
5ª Companhia Indígena destacou, para a fronteira (justamente para a zona da Kibenga), um pelotão para acompanhar uma secção dos Serviços Geográficos e Cadastrais, a fim de se localizar um marco
geodésico que o almirante Gago Coutinho e o comandante Moura Brás, em 1910, tinham colocado como sinal de fronteira. Fora esse lugar onde, meses depois (entre Maio e Junho de 1961), se instalaria
a primeira central da UPA, em território angolano, junto ao rio Fuleje.