Os Zombos na Tradição, na Colónia e na Independência (36)
Por Dr José Carlos de Oliveira.
Tentaremos justificar tanto quanto pudermos, o que escreveremos nesta secção. Contudo, alguns dos dados estarão certamente contagiados pela
subjectividade e são o resultado do nosso ângulo de visão e de opinião actual. Uma coisa é consultar documentos históricos sobre guerras, povos, contactos de culturas e ouvir até testemunhos
credíveis e depois dissertar sobre o assunto, outra é viver profundamente os acontecimentos política, social e economicamente relevantes, durante longos anos, e depois, ter a rara oportunidade de
procurar, conferir e analisar documentação e, a partir daí, sermos o mais isentos possível em dissertação científica acerca dessa investigação.
Nenhum país colonizador deixou de arcar com os conflitos consequentes das suas recentes descolonizações. Basta‑nos citar a França e a Bélgica
(pela sua fronteira com o norte de Angola) como potências colonizadoras e os casos de sua responsabilidade, respectivamente na Argélia, Indochina e no Congo Brazzaville, agora, República Popular
do Congo e Congo Belga, actualmente República Democrática do Congo.
Revisitemos, neste momento, a obra Política indígena de Sampayo e Mello (1910:501): “(…) quando, porém, as
populações indigentes forêm civilisadas e manifestarem uma certa tendência para reivindicar a sua independência politica, é razoável e prudente manter n’essas colónias os effectivos europeus
suffcientes para prevenir ou sufocar qualquer revolta (…).”
Questionamo‑nos então o que se passaria caso os portugueses estivessem bem armados, como propunha Sampayo e Mello, e a administração colonial
portuguesa tivesse aumentado os seus efectivos militares, em qualidade e quantidade, na zona norte de Angola, naquela época crucial dos destinos de Portugal. Nesse momento, os conflitos armados
teriam sido muito mais devastadores, teriam tido repercussões internacionais muito mais sérias porque, em resposta, à investida dos guerrilheiros da UPA, as forças armadas portuguesas e a
população civil teriam dizimado grande parte da população kongo.
Os acontecimentos, que se seguiram à Independência do Congo ex‑Belga e que resultaram no êxodo dos europeus do Baixo Congo, tiveram certamente
muita influência no caso. Os reflexos dos relatos dos acontecimentos transmitidos aos residentes da zona do Zombo puseram de sobreaviso a população branca, embora as autoridades administrativas
locais (incluindo o intendente) levassem‑na a sentir que estavam bem defendidas.
Admite‑se hoje que, os ideólogos da preparação das bases independentistas, não faziam a menor ideia do banho de sangue que o 15 de Março de
1961 traria consigo. Nesses interesses, estavam especialmente envolvidos os EUA onde a Fundação Ford teve e tem grandes responsabilidades, a União Soviética, passando pelos Não
Alinhados, incluídos os interesses dos oligopólios portugueses, até às diferentes Igrejas operantes no terreno. Todos tiveram grandes e graves responsabilidades, no desenrolar dos
acontecimentos, especialmente a Igreja Evangélica Baptista (do norte de Angola), por um lado, e a Igreja Católica, por outro.