Viagem ao BEMBE e DAMBA (6).
Por José Cardoso - Governador do Congo português em 1912
Os habitantes
População – Características de diferenciação. Estado social – Condições de vida – Relações entre o gentio e a autoridade e o comércio – As quitanda.
MUSSORONGOS
(…) Como em toda a parte do distrito, são as mulheres que trabalham nos campos, onde só é cultivado o indispensável para um sustento miserável, sendo vulgar a fome nos anos em que o regime
pluvial, já de si pobre, se afasta do estado social destes povos é bastante rudimentar, vivendo em regime patriarcal imperfeito, ligadas a diferentes família pelo conselho mucuruntos que,
juntamente com os sobas, resolvem as suas contendas em fundações, nas quais o problema mais frequente é o das desinteligências conjugais.
Raras vezes aparece hoje o caso das condenações por feitiçaria, que em tempos não muito remotos atingia principalmente os indígenas que conseguiam distinguir-se dos outros por possuírem, mais do
que eles, qualquer coisa, que era necessário ser distribuída pelos acusadores da feitiçaria, e por venda de mortos, que era um crime hipotético, reputado muito grave entre mussorongos, e que
levava sempre o condenado por essa falta a uma morte horrorosa, cuja denuncia era quási sempre movida pela cobiça da partilha dos bens do acusado.
Actualmente os mussorongos recorrem à nossa autoridade quando querem fundar sobre assuntos que ela admite como plausíveis, sendo conveniente sustentar esta corrente que se mantêm, se a autoridade
souber identificar-se com os hábitos mussorongos, resolvendo em harmonia com eles.
Hoje o mussorongo que vive mais perto da nossa autoridade já começa a ter coisas, em especial artigos do vestuário europeu, sendo frequente um carregador de tipóia, depois de chegar a um local de
descanso onde tenha empenho em meter vista, tomar o seu banho e sacar da “burrinha”, um traje europeu que faz as delicias dos seus amigos na localidade, o que para nós tem a vantagem de
constituir um incentivo para os que ainda não possuem boas roupas procurem o trabalho para adquirirem o requinte de luxo que ao mussorongo, amante de quitoco, é dado gozar entre os seus patrícios
e em especial quando por suas terras passa a autoridade.
(…) Ainda, como sendo um sintoma de grande tendência que o mussorongo tem para aperfeiçoar os seus hábitos, citarei o facto ocorrido no Quelo durante esta minha viagem. Por iniciativa do
comandante deste posto militar, funciona ali há pouco tempo uma escola que é concorrida por pequenos da região, os quais à minha chegada vieram pedir-me fatos de calça, por isso que depois de
saberem ler a mucanda entendem que não devem continuar a usar panos.
Poderá parecer à primeira vista que o registo destas minúcias é feito por mero interesse literário ou pela intenção, mais efémera ainda, de pretender colorir a minha relação de viagem com tons
pitorescos berrantes. Não é assim. Todas observações interessam, julgo eu, se forem devidamente interpretadas e se forem bem aproveitadas, já para orientação da iniciativa das autoridades locais
na transformação da sociedade gentílica, especulando sobre as tendências manifestadas pelo indígena, já pelo próprio comercio , o qual conhecendo essas tendências e predilecções, poderá lucrar
sabendo delas tirar partido para as suas transacções de permuta, atraindo o género colonial ao mercado, pela oferta razoável de mercadoria de preferência ocasional. De resto, ao Governo interessa
também que da permuta desapareçam o álcool e a pólvora com que os nossos antepassados começaram a negociar e que até há pouco mantinham com graves inconvenientes gerais, sobre os quais se me
afigura desnecessário especular (1)
(1) A proibição da venda de álcool tornou-se efectiva no distrito do Congo no dia 30 de Junho de 1913, em virtude da portaria provincial nº. 302, de 26 de Março do mesmo. A proibição da venda da
pólvora, no Congo, entrou em vigor pela portaria provincial nº. 797, de 3 de Julho de 1913, excepto no Enclave, por absoluta impossibilidade de aí se tornarem efectivos os seus efeitos, devido a
não existir idêntico regime nas colónias vizinhas.
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Extrato “ In- NO CONGO PORTUGUÊS, VIAGEM DO BEMBE E DAMBA – Considerações relacionadas. Relatório do Governador do distrito, primeiro tenente de marinha, José Cardoso Cabinda ,1913
Pesquisado por ARTUR MENDES.