Viagem ao BEMBE e DAMBA (5).
Por José Cardoso - Governador do Distrito do Congo português em 1912

Os habitantes
População – Características de diferenciação. Estado social – Condições de vida – Relações entre o gentio e a autoridade e o comércio – As quitanda.
Dos povos que habitam o sul das capitanias do Bembe e da Damba pouco se sabe, acontecendo outrotanto em relação à região sueste do distrito que está sob jurisdição nominal da capitania- mor do
Quango.
Ao sul do Bembe, desde 1875 que não se vai, sendo mesmo provável que nunca se fosse à Quivoenga , por isso que, no primeiro estabelecimento da nossa autoridade no Bembe, as comunicações com esse ponto eram feitas pelo Ambris passando-se pela Quibala, a a Quivoenga fica entre o Bembe e o Encoje.
O sul da Damba e o sueste do Quango também não consta que tenham sido visitados, pelo menos por pessoas a quem a observação desta natureza interessem ou impressionem.
MUSSORONGOS
Os Mussorongos são ainda hoje tipos dos melhores, entre os do Congo, sob o ponto de vista físico. Altos em geral, robustos, bem constituídos e de feições insinuantes, apresenta-se ao europeu com
desenvoltura e altivez, são irrequietos, propensos à rebelião, tendo por mais duma vez causado perturbações de ordem difíceis de aquietar.
Pela sua vivacidade, inteligência e faculdades de compreensão, revelam uma grande propensão para aperfeiçoar-se nas suas aptidões primitivas e aquesição de outras novas. Vivendo em contacto
constante com o meio húmido, já com as águas do Zaire que são um verdadeiro mar, já com as do Atlântico, foram sempre bons marinheiros de canoa.
No rio, usando a canoa gentílica vulgar, que utilizavam na pesca, nos transportes e principalmente na pirataria que exerceram com audácia até 1870, atacando embarcações de vela dos europeus, que a calmaria e a corrente faziam encostar à margem, chegando a sua ousadia a atacar e roubar essas embarcações, ainda mesmo quando guarnecidas com caronadas, como então era uso no Zaire; no mar, usando uma canoa composta pela reunião, borda a borda, de duas canoas ordinárias cosidas com lianas por forma a aumentar a estabilidade e que empregam ainda hoje na pesca.
Dão, portanto, óptimos marinheiros de leme e de vela, e trabalham também abordo, sem relutância nos serviços de fogo, encontrando-se hoje grande número de mussorongos tripulando embarcações de cabotagem, onde desempenham todos os mesteres, sendo já preferidos aos cabindas pelos armadores. Sendo óptimos carregadores, prestam serviço na alfandega de Loanda e de San-Tomé, para onde se contratam, sem relutância por períodos de um ano; trabalham também em serviços de obras públicas no distrito e em San-Tomé, de onde são muito procurados. Servem com repugnância em trabalhos agrícolas, sendo necessário compeli-los a isso, todavia com bons resultados, pois são sempre os mussorongos que se mencionam nas requisições de trabalhadores dirigidas ao Governo. Notando-se que há pouco mais dum ano que começaram a iniciar-se nesses trabalhos, é de crer que, gradual e sucessivamente, se vão habituando a esses serviços, que agora lhes repugnam, sobretudo depois de adquirirem a convicção de que o seu trabalho lhes será regular e razoavelmente retribuído , como está acontecendo.
Todas estas circunstâncias contribuem para que o espírito de rebelião tenda a desaparecer, especialmente nos mussorongos da antiga circunscrição de Santo António, que são os que se acham em maior
contacto com a autoridade.
É porém muito conveniente e necessário não deixar de exercer, durante anos avir, uma acção de policia militar bastante vigilante, a fim de por completo desaparecerem as suas tradições de
turbulência e essa vigilância nos habilitar a exercer uma acção mais directa sobre os povos do interior da circunscrição que
ainda hoje se nos escapa…
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Extratos: “ In- NO CONGO PORTUGUÊS VIAGEM DO BEMBE E DAMBA – Considerações relacionadas. Relatório do Governador do distrito, primeiro tenente de marinha, José Cardoso Cabinda, 1913
Pesquisa do ARTUR MENDES.