Damba,1945-1953 (23)
Por Dr MANUEL ALFREDO DE MORAIS MARTINS. (Administrador da Damba 1945-1953).
Despedida da Damba.
De todos os anos que passei em Angola, incluído o período em que integrei a equipa do governo geral, no exercício das funções de secretário geral da província ( 1962 - 1967 ), os que mais
saudades me deixaram foram os que vivi na Damba. Foi a primeira colocação, o primeiro contacto com a realidade africana, a mais dilatada permanência na mesma zona e também a época em que me senti
mais realizado. O trabalho burocrático não apertava, a idade ajudava, toda a população me aceitou sem quaisquer reservas e confiou sempre na seriedade dos meus propósitos.
Cheguei à Damba em 1 de Abril de 1945 e de lá sai em 19 de Novembro de 1953. Entre a chegada e a saída mediaram mais de oito anos,interrompidos entre Julho de 1951 e Julho de 1952 quando estive
na metrópole, no gozo de licença graciosa. Mas nem mesmo nesse período estive desligado daquele concelho, pois o governadorgeral Silva Carvalho tinha determinado que o lugar ficasse reservado
para mim até ao termo da
licença.
E foi assim que, quando do regresso, o averbamento que no dia 6 de Agosto daquele último ano
Administração Civil, registava : « Apresentado, vindo da Metrópole. Segue para o Concelho da Damba, Distrito do Congo, província do mesmo nome, a fim de reassumir as suas funções.....» foi
inscrito na minha guia de marcha, na Direcção dos Serviços de Um ano depois, e porque a um dos secretários do governadorgeral apeteceu ser colocado na Damba e ao governador da província do Congo
também agradava tal movimento, foi o meu nome apontado ao capitão Silva Carvalho como a pessoa mais conveniente para tomar conta da intendência do distrito de Moçâmedes, com vista a serenar os
ânimos exaltados por conflitos que tinham surgido entre um dos últimos intendentes e um dos grupos de pressão com forte implantação política no distrito.
Entendi a atitude do governador da província como hábil manobra tendente a ver-se livre de um funcionário incómodo que não facilitava até se opunha frontalmente às suas maquinações. Como não encontava razões que justificassem uma proposta de transferência para outro concelho e conhecia, ao mesmo, a boa conta em que o governador geral tinha, plneou com ajuda do principal interessado e de um funcionário influente na Direcção dos Serviços da Administração Civil, a minha subida, embora interina, a posto superior, mesmo ao arrepio da estrita legalidade. É que havia, então, três categorias de administradores, e que apenas os pertencentes a primeira classe estavam em condições de ser a intendentes de distritos, ou a ser investidos, interinamente, ao mesmo cargo. Ora eu o simples administrador da terceira classe e a minha nomeação constitui verdadeiro escândalo. Convista a libertação do lugar do administrador do Concelho da Damba, os interssado fizeram assim que, embora inocentemente, o govrnador- geral me desse um pontapé pelas escadas acima.
Continua...
Em colaboração de João Garcia e Artur Méndes.