Clima de tensão cresce entre os militantes da FNLA.
Por Ireneu Mujoco.
O clima de tensão entre os militantes da FNLA,
liderados por Ngola Kabangu, continua a crescer, numa altura em que é conhecida hoje, sexta-feira,3, a sentença a ser aplicada pelo Tribunal Provincial do Uíge aos três militantes acusados de
envolvimento em actos de pancadaria com outros partidários fiéis a Lucas Ngonda, no dia 25 de Novembro, dos quais resultaram ferimentos ligeiros em Afonso Joaquim, representante de Ngonda, assim
como a destruição parcial da sua viatura.
Segundo apurou O PAÍS no local, contra Domingos Fernando, Pedro Coxi e Lufila Nima Maria, esta última secretária para a informação da Associação da Mulher Angolana(AMA), organização feminina da força política, pendem acusações agressão brutal a Afonso Joaquim, secretário provincial da FNLA, (ala de Ngonda). Os arguidos tiveram a primeira audiência nesta terça-feira.
O processo teve origem na quintafeira da pretérita semana, quando um grupo de militantes que se identificam com Ngola Kabangu se insurgiu contra a realização de uma actividade político-partidária, na cidade do Uíge, de militantes que se mostram fiéis à nova direcção saída do Congresso de Julho, em que foi eleito Lucas Ngonda como novo líder desta força política.
A agressão a Joaquim Afonso e a outros militantes foi a consumação de uma outra tentativa falhada na cidade de Negage, onde se teve de interromper a actividade dos partidários de NGonda. A situação só não tomou contornos mais graves graças à pronta intervenção da polícia.
Face à situação, uma delegação ida de Luanda, encabeçada pelo vicepresidente de Ngola Kabangu e deputado à Assembleia Nacional, Nimi-a Simbi, está desde quarta-feira no Uige para se inteirar “ in loco” do que efectivamente se terá passado.
À chegada ao Uíge, Nimi-a Simbi reuniu-se à porta fechada com o elenco do secretariado provincial.
No final deste encontro nada foi dito à imprensa, mas O PAÍS soube que “o encontro visou informar o vice-presidente do que ocorreu no dia 25, tendo-se falado ainda da vida interna do partido, da preparação do congresso ordinário em Novembro de 2011, bem como das eleições de 2012”. Segundo a fonte que nos confindenciou a informação, Nimi-a Simbi ter-se-á mostrado igualmente preocupado com a detenção dos seus militantes.
Durante a sua estada nas terras do “ bago vermelho”, Nimi-a-Simbi tinha encontros previstos ontem, 2, com o governador provincial, Paulo Pombolo, e com outras entidades provinciais, a saber: comandante provincial da Polícia Nacional(PN); Procurador Provincial e responsável do gabinete de apoio aos partidos políticos. Deve ainda deslocar-se à vizinha cidade de Negage, onde vai trabalhar com as estruturas do partido. A visita a esta localidade é o início de um ciclo que a direcção da força política pretende cumprir nos próximos dias, segundo conseguimos apurar.
No meio deste turbilhão, alguns militantes (claramente da ala de Kabangu) abandonaram as suas residências, tendo-se agrupado na sede do partido, ao bairro Dunga, numa espécie de “vigília”. Contaram a este jornal que não querem ouvir falar do político Lucas Ngonda como líder da FNLA.
Segundo eles, “Ngonda é um vendido ao MPLA, em troca de dinheiro e outras benesses”, com o propósito de prejudicar o partido que “foi fundado com muito sacrifício, suor e sangue”, disse um militante já sexagenário.
Os militantes, sobretudo pessoas já anciãs, acrescentam que em momento algum “Lucas Ngonda vai liderar o partido, considerando-o como um traidor sem escrúpulos”.
Eles alegam que o único líder legítimo da FNLA “é Ngola Kabangu, eleito num congresso democrático e transparente realizado em 2007, durante o qual derrotou os outros dois concorrentes, Miguel Damião e Carlinhos Zassala. O irmão Kabangu é o presidente legítimo e fora do qual não há ninguém até que se realize o nosso congresso em Novembro do próximo ano”, dizem.
O que mais está a agastar os ânimos destes “velhos” combatentes, alguns deles debilitados fisicamente, é o facto de, na véspera das eleições legislativas de Setembro de 2008, Lucas Ngonda ter apelado aos militantes da FNLA para votarem contra o próprio partido, “numa entrevista concedida ao Novo Jornal” .
É com base neste novo argumento que alegam estar perante um homem que quer somente “apropriar-se da liderança do partido para gerir dinheiro e mandar para França, onde vive parte da sua família”, denunciam. Acusam ainda o político e professor universitário de estar a banalizar a imagem do partido “ quando afirma ser o nosso líder e eleito num congresso”. “Qual congresso?, interrogou-se um dos militantes, que considera que o sociólogo Lucas Ngonda “é um aventureiro e deve abdicar da falsa liderança da FNLA, porque ninguém lhe reconhece legitimidade alguma”.
A crise de liderança no seio desta tradicional força política começou em Novembro de 1998, altura em que Lucas Ngonda e um grupo de quadros “romperam” com o presidente-fundador Holden Roberto, alegando falta de reformas internas à luz das novas transformações democráticas. Segundo Ngonda, o partido já não se adaptava à nova realidade.
Passaram perto de oito anos até que se tentou uma aproximação, em 2004, com a realização do “Congresso da Reconciliação”, que se veio a revelar um fracasso. Lucas Ngonda optou então pela realização de um Congresso extraordinário em 2006, no Futungo II, de onde saiu eleito por aclamação. Com a morte do “velho” Holden, Kabangu, realizou um outro em 2007, de que também saiu vencedor.
O pais.