Overblog Seguir este blog
Edit post Administration Create my blog

Portal da Damba e da História do Kongo

Portal da Damba e da História do Kongo

Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


Lucas Ngonda: "O momento é de unidade para tirar o país da crise"

Publicado por Muana Damba activado 3 Junio 2016, 19:39pm

Etiquetas: #Notícias do país, #Entrevistas

Lucas Ngonda: "O momento é de unidade para tirar o país da crise"

Por João Dias

O presidente da FNLA fala em novas dinâmicas e na reestruturação profunda do partido para que deste modo deixe para traz períodos marcados pelo desentendimento no seio dos “irmãos”.

O objectivo é restituir o lugar do partido à cena política nacional, o que vai depender em grande medida dos resultados eleitorais em 2017. Apesar de os anteriores terem sido sofríveis, Lucas Ngonda tem um optimismo vincado. Em entrevista ao Jornal de Angola, o líder da FNLA fala do actual quadro económico e financeiro do país e defende: “Temos de nos unir em torno de um projecto comum para tirarmos o país da crise” e para tal sugere que “cada cidadão seja chamado a dar a sua contribuição naquilo que é essencial para salvaguardar o interesse comum”. Lucas Ngonda, que acredita na força da juventude, sublinha que é preciso prepará-la para que assuma com responsabilidade e comprometimento o futuro do país. Realça o bom clima reinante no seio do partido e critica aqueles que pretendem protelar interesses superiores da organização política em nome de privilégios e interesses pessoais. Em face disso, a sua luta passa pela unidade e harmonização do partido.



Jornal de Angola – Como descreve o clima que reina actualmente no seu partido?

Lucas Ngonda – Estamos a trabalhar na reestruturação profunda da FNLA para que como partido histórico possa ocupar verdadeiramente o seu lugar no concerto da nação angolana e a reconquista de tudo quanto perdeu. Essa estruturação começa na direcção e se estende às províncias. Numa altura em que se aproximam as eleições, temos de tomar outra dinâmica, e é em função disso, que continuamos a trabalhar. Vale dizer que no seio do partido o clima é bom. Vencemos muitos obstáculos e continuamos a vencer outros. A vida política não é uma papinha feita e não é linear. Ela tem altos e baixos e a responsabilidade de assumir o bem comum, não visa agradar a gregos e troianos.


Jornal de Angola – Esta reestruturação profunda é necessária e urgente, fundamentalmente após a polémica que ocorreu no congresso de 2015?

Lucas Ngonda – Claro que sim, mas penso que uma das grandes ­características da política passa pela dimensão moral. Na política quando aplicamos muito sentimento acabamos por nos prejudicar a nós próprios. Precisamos de criar equilíbrio. Mas voltando ao congresso, devo dizer que o preparamos sob o signo da “unidade e reconciliação da FNLA” e, antes disso, convoquei um fórum de acordo com os estatutos para colocar a nu os problemas do partido. Todas as decisões que daí resultaram foram submetidas ao Comité Central e transitaram para o Congresso afim de reformular as novas estruturas do partido, o que já tinha sido feito no Comité central, que antes era de 320 membros foi alargado para perto de 500 membros e o bureau político que tinha 57 membros foi alargado para 90 membros. Só não esperávamos que aparecessem pessoas dispostas a perturbar o congresso.

Jornal de Angola – Tudo isso foi feito numa perspectiva de tentativa de promover a inclusão e conseguir alguma harmonia ideológica no seio do partido?

Lucas Ngonda – Exactamente. E estávamos no bom caminho e descansados de que tudo correria bem, mas o que chamou a nossa atenção foi o facto de durante a preparação do fórum, outras reuniões ocorriam para instigar as pessoas a não participarem no congresso que visava a unidade e reconciliação do partido. Todos que se revissem nos objectivos do partido eram bem-vindos. No Complexo 15 de Março estava muita gente naquele dia de chuva, mas nem todos foram para participar no congresso. Constatou-se que muitos levavam catanas, facas, paus e jindungo, bem como cartazes a exigir a morte de Lucas Ngonda. O que aconteceu é próprio de pessoas, que ou de política não entendem nada ou são assassinos por natureza, e querem fazer passar o banditismo que lhes encarna na vida partidária. O objectivo foi o de sabotar o congresso. Há pessoas que sempre se acharam acima dos interesses do partido e quiseram criar esta confusão e capturar a sua direcção. Mas a nossa luta já não é para verter sangue. É apenas para a unidade e harmonização do povo angolano e do partido. Só que infelizmente tivemos um morto.

Jornal de Angola – Após a morte de Holden Roberto desencadeou-se na FNLA uma fragilização seguida de um crónico desentendimento. Partilha desta ideia?

Lucas Ngonda – Não partilho desta ideia. Por que razão surgiram as reformas no partido? Mas não gostava de falar do presidente Holden, porque ele já não vive. Ele fez o que podia fazer, mas o que gostaria de dizer é que mesmo em vida o jornal “Folha 8”, que viria a tornar-se inimigo do partido, escrevia nas suas páginas “A defunta FNLA”, numa alusão a que o partido ia perdendo a sua dinâmica. Tínhamos de fazer sentir ao velho que nos tempos que corriam não era recomendável continuar assim. Na altura, era secretário nacional para a informação e tudo isso tocava-me directamente. O presidente Holden, após as eleições de 1992, voltou à França, onde fez dois anos sem regressar e houve muitos manifestos que apelavam ao seu regresso. Isso é só para dizer que existiam grandes fraquezas na altura que sugeriam reformas no partido. Fizemo-las, mas muita gente viria a chamar o partido de “FNLA renovada”. Nunca houve uma FNLA renovada. O partido sempre foi o mesmo.

Jornal de Angola – Depois das acusações de que foi alvo da parte de Ndonda Nzinga sente-se confortável para encarar as eleições de 2017?

Lucas Ngonda – Nem por isso, pois continuamos a preparar-se para as eleições e o povo também se prepara para um evento desta dimensão. É o que estamos a fazer e isto não depende de “a, b e c”. Depende do programa político da FNLA. Se o conseguirmos fazer passar junto do povo, vai passar e isso não depende de a, b e c ter deixado ou não o partido. Depende somente da dinâmica que o partido tem em relação aos seus desafios.
Jornal de Angola - Parece ter uma tarefa hercúlea pela frente, pois apesar da iniciativa de tentar congregar, unir e reconciliar o partido, as vozes dissonantes internas prosseguem. Falo de Ngola Kabango, que continua desavindo, e de Pedro Gomes.
Lucas Ngonda – Não estou aqui para falar de pessoas. Mas diria simplesmente que estas pessoas que citou as conheço profundamente e escuso-me a falar delas, pois quem tem interesses pessoais muito agudos dificilmente se alinha aos interesses superiores do partido. Esses interesses ofuscam o patriotismo das pessoas e é o que se está a passar na FNLA. Os verdadeiros patriotas, aqueles que promovem o interesse geral e a reabilitação da FNLA para que ocupe o seu lugar, não têm fundos e mundos e estão connosco. Acreditam nos ideais e sempre foi assim desde a luta de libertação. Aqueles que pensam que os ideais vêm depois e que as ambições pessoais passam primeiro e que devem ser privilegiadas, não têm outra batalha se não ofuscar os objectivos da direcção do partido. Estamos atentos e vamos continuar a lutar em nome dos nossos ideais. Falei com padres e pastores, bispos e homens de boa vontade para que este apelo fosse compreendido. Não foi. Mas digo: “Ninguém mais pode escrever sobre a libertação do país sem a FNLA. Podem falsificar tudo, menos isso”.

Jornal de Angola – Disse que a política não se compadece com sentimentos. Sente que conduziu o partido com algum sentimentalismo a certa altura?

Lucas Ngonda – Até certo ponto sim. Não conhecia bem as pessoas e não tomei as precauções necessárias, isto confesso. E à medida que fui avançando na luta, outras realidades resultantes do contacto directo com as pessoas foram-me revelando outras coisas. Hoje, o importante passa pela busca de equilíbrio. Na FNLA não tenho inimigos, nem adversários, pois sou um militante como qualquer outro e estou aqui para promover o interesse comum e preservar o marco histórico que nos possa dar um outro destino dentro deste país. Muitas vezes, os familiares, vendo-me a sofrer com as acusações, sugerem que abdique. Mas a política não é isso. Se Agostinho Neto e Holden Roberto abdicassem na sua luta contra o colonialismo o que mudava em Angola? Nada. Quando temos questões importantes a resolver e um destino a dar à nação ou a uma instituição como a FNLA, não se pode abdicar.

Jornal de Angola – A luta prossegue então, embora exija mais sacrifícios?

Lucas Ngonda – Continuamos a nossa luta e a causa justa acaba por vencer. Inimigos são muitos. É um complô em conluio com a comunicação social que só quer ver a FNLA a terminar. Por que razão o partido tem de terminar dentro deste país? Estão a mobilizar pessoas para este efeito. Eu digo: não são patriotas. Tenham as posições que tiverem, não sabem de onde Angola saiu e qual foi o nosso papel. Se o soubessem, respeitavam-nos mais. Eles pensam:"ou somos nós a dirigir o partido ou então tem de acabar". Há algum patriotismo nesse tipo de sentimento? Acho que não. A FNLA vai continuar a desempenhar o seu papel dentro deste país.

Jornal de Angola – Enquanto líder partidário como vê o quadro económico e social do país?

Lucas Ngonda – O actual quadro económico que vivemos hoje era de esperar. Era de esperar porquê? Porque o país, independente há 40 anos, submetido às diatribes da guerra civil, não fez um plano de “economia de guerra”. A guerra era financiada pelo petróleo que jorrava ainda na “cabeça de cobre” que nunca foi tomada por qualquer adversário e sempre funcionou. Competia aos economistas fazer o plano. Nós não fizemos isso. Veio a paz em 2002 e continuamos com a mesma lógica de viver do petróleo. Então, esperávamos o quê? Temos de reconhecer que este país tão destruído como estava, precisava, de em primeiro ­lugar, recuperar todas as infra-estruturas. Qualquer governante, não tomaria outra decisão. Isto levou dinheiro e tempo. Recuperadas as infra-estruturas, devíamos organizar um plano de diversificação da economia, mas Angola esqueceu-se de que é um país essencialmente agrícola e que no tempo colonial exportava carne no domínio da criação de gado, no domínio das pescas exportava farinha de peixe, no domínio da agricultura éramos o quarto maior produtor mundial de café. A agricultura é fundamental. Era preciso que tivéssemos isto como uma base e ponto de partida para arrancar com a diversificação, mas assentamos todo processo no petróleo. Isto tem a mão externa e a depreciação levou-nos ao colapso que hoje está a repercutir-se na vida das populações.

Jornal de Angola – O que fazer numa fase tão difícil como esta em que a incerteza ensombra a vida de todos?

Lucas Ngonda – Sublinhe-se que a política não é uma linha recta. Não há nada que não seja difícil nesta fase, mas ainda assim se pode construir na dificuldade. Note que foram nas dificuldades que também recuperamos as estradas, pontes e barragens e ao lado destes planos devíamos ver que eram necessárias para que o país funcionasse. Não podemos chorar pelo leite derramado. Temos de nos unir em torno de um projecto comum para tirarmos o país da crise. Não existem milagres para Angola. O milagre deve ser a unidade, a reconciliação e a responsabilidade dos angolanos em construir o edifício do bem comum. Temos de preservar a paz, em primeiro lugar. Mas como fazê-lo se uns estão contra os outros? Se queremos preservar a paz, o nosso projecto deve ser integrativo para produzir o que salvaguarda os interesses superiores de Angola. Não fazemos apologia na FNLA dos discursos milagrosos. Não existe varinha mágica. Se assim pensarmos estamos a enganar o povo que em 1975 pensou que tudo era só maravilhas e hoje nunca questiona porque o marxismo deixou de imperar em Angola e voltamos à democracia, que era o projecto inicial da FNLA desde 1954.

Jornal de Angola – Não é paradoxo em tempos de grande dinâmica e mobilidade social falar da aposta do vosso partido na juventude já que são considerados “o partido dos velhos”?

Lucas Ngonda – Quem não apostar na juventude vai fazer o quê? Nos jovens está o futuro de qualquer nação. Nós vamos continuar a apostar em grande medida na juventude. Nós sempre tivemos dois programas. Um programa menor e um outro de longo prazo. Cumprimos o programa menor que consistiu na Independência de Angola. Agora, o programa maior passa pela aspiração de um dia a FNLA dirigir Angola. E isto é um problema de gerações. Os jovens estão aí a vir, mas têm de se preparar.

Jornal de Angola – Até que ponto é que a actual situação económica e financeira compromete o desempenho e o bom funcionamento dos partidos políticos, em particular do vosso?

Lucas Ngonda – Esta situação influencia, pois o partido político está inserido na vida da sociedade. As dificuldades que a população está a enfrentar neste momento repercute-se na vida de todas as forças políticas e de todos os sectores da vida nacional. Nós entendemos que por esta razão não podemos estar dizer que o Governo é que errou e que fez isto ou aquilo. Digo isso em alto e bom som: no momento actual não devemos procurar ajustes de contas. O que devemos fazer agora é procurar soluções conjuntas. Mas quem tem as rédeas do país tem de entender que sozinho não pode produzir os resultados que satisfaçam a todos. Quem tem o poder deve ter o bom senso de trabalhar na contínua busca da reconciliação nacional com as forças políticas para que possamos desempenhar um papel histórico importante num momento em que o nosso país está em dificuldades. Esta é a nossa forma de pensar, mas isto não quer dizer que alinhamos com isso ou aquilo.

Jornal de Angola – O que nos quer dizer?

Lucas Ngonda – A FNLA tem o seu próprio programa e tem os seus próprios objectivos, mas quando dos grandes atentados de Paris nos anos 1980, houve uma lição que tirei. O povo francês estava inseguro e então as diferenças políticas tiveram de fazer causa comum para vencer as adversidades. Era o país que estava em causa. Hoje é Angola que está em causa. Nós estamos todos no mesmo barco. Se o barco Angola afundar quem fica? Ainda que pretendamos fugir para um país estrangeiro, que vida teremos? Já vivi 20 anos no estrangeiro e sei bem o que é isso. Parecendo que não, para qualquer patriota, a pátria segue-lhe. Por isso, ao invés de termos de abandonar a pátria, o melhor é defendê-la até as últimas consequências agora que está em dificuldades. Cada cidadão é chamado a dar a sua contribuição naquilo que é essencial para salvaguardar o interesse comum.

Jornal de Angola – No que respeita à actividade parlamentar em Angola, somos confrontados com os partidos da oposição “asfixiados” pelo protagonismo do MPLA. Neste cenário, quais são as grandes propostas ou linhas de força da FNLA?

Lucas Ngonda – Não sei se a questão está bem colocada. Mas no formato do Parlamento, não há partido algum que tenha grandes linhas de força. A prova é que este Parlamento existe há mais de vinte anos e neste período nunca alguma disposição ou projecto legislativo proveniente da oposição foi aprovado. No ordenamento jurídico e nas leis votadas no Parlamento não há neste momento uma única que tenha sido um projecto da oposição submetido à discussão e aprovado. Não há, que me lembre.

Jornal de Angola – Na sua opinião tudo isso envia um sinal muito negativo à sociedade?

Lucas Ngonda – Claramente. Um sinal muito negativo para um Estado democrático e de direito. Mas em linhas gerais, esta é a lógica do Parlamento que temos. Como é que quer que não haja apatia, se tudo quanto se discute lá morre também lá. Daí a razão de exigirmos a transmissão em directo, pois, deste modo, o Parlamento estava a desempenhar a sua função pedagógica e a dizer ao cidadão que não é só do MPLA como se diz, mas onde todas as forças políticas discutem e têm alguma voz. Estamos numa democracia, mas neste momento o funcionamento do Parlamento é o modelo do partido único. Chegou-se ao ponto de se falar de Jamba e outras coisas mais em plena sessão. Sinceramente, nós não somos chamados para isso. Somos chamados para falar do tal projecto de reconstrução do país e da visão que devemos ter para o bem e futuro da nação angolana. As pessoas defendem-se como podem, mas esse tipo de contribuições não enriquece o debate parlamentar.

Jornal de Angola – A corrida às eleições começa a ganhar alguma velocidade da parte dos demais partidos. Como vai a FNLA neste aspecto?

Lucas Ngonda – O bureau político e o comité central, com vista a preparação das eleições, produziram um programa e nós estamos a trabalhar nele para atendermos as expectativas daquilo que entendemos fundamental para os desafios eleitorais. Estamos optimistas, porque o que manda no meio de tudo isto, é o nosso próprio trabalho.

Jornal de Angola – Nas eleições anteriores a FNLA saiu muito fragilizada e a justificar está o número de assentos conseguidos no Parlamento. Sente que em 2017 as coisas tendem a ser diferentes?

Lucas Ngonda – Estamos a lutar para que seja diferente. Mas não podemos entender as eleições anteriores se não colocarmos a problemática das eleições de 1992, altura em que dois grandes partidos históricos, FNLA com uma implantação nacional indubitável e o MPLA (...), a UNITA apareceu depois e agigantou-se no decurso da guerra civil, mas na luta de libertação não tinha expressão. A FNLA em 1992 saiu com cinco deputados. O velho Holden estava em vida. Isto não coloca uma reflexão aos jornalistas? Hoje o problema da FNLA é também um problema que os jornalistas criam ao partido. Veja: quando o partido exclui alguém da sua secretaria fá-lo como medida administrativa interna, mas estendem-lhe microfones para proferir disparates. Que instituição é que não tem regras ou estatutos? As pessoas devem cumprir o que está consignado nos seus estatutos. Quem não o faz, é sancionado. Mas basta que isso aconteça para no dia seguinte estar na imprensa. Acho isso uma falta de respeito à própria democracia. Uma pessoa que acolhemos aqui. Assumiu um papel de responsabilidade e depois sai a criticar. Como aceitar isso? Será que quem age assim é mesmo político?

Jornal de Angola – Quem é?

Lucas Ngonda – Para um bom entendedor meia palavra basta. Vocês é que fazem jornais, sabem de quem estou a falar. Isso só para dizer que o facto de o velho estar em vida e termos tido cinco deputados, diz muito. Os partidos criados de ocasião, tiveram oito deputados. Com todos os outros fazíamos 14 deputados, tirando a UNITA com 70 (...) Não acha estranho que com Holden Roberto em vida, a FNLA tenha tido só cinco deputados? Nós sabemos as razões. As eleições de 1992, embora fossem multipartidárias, o sentido da sua realização representou um duelo entre a UNITA e o MPLA. Do duelo militar passou-se para o duelo eleitoral. Foi o que se passou. Quanto aos resultados de 2008, podemos dizer que faltou uma reflexão profunda no seio do partido que permitisse deixar de parte as querelas pessoais. Pelo contrário, fomos agudizando as acusações gratuitas que só engorda o adversário e que até hoje continuam. Vamos lutar ­para conseguir melhores resultados.

Jornal de Angola – O senhor vai ser o cabeça de lista do seu partido às eleições?

Lucas Ngonda – Isso é constitucional e estatutário, mas sempre submeti esse tipo de questões aos militantes da FNLA, quando há eleições já que a soberania vem do povo. É o povo que diz quem quer e quem não quer. Sempre coloquei o meu lugar à disposição e quem quisesse podia avançar. Os militantes é que decidem.

Jornal de Angola – Pode adiantar-nos a vossa estratégia eleitoral para 2017?

Lucas Ngonda – Isso é um processo interno do partido. Para um país onde a FNLA tem muitos adversários políticos, não é o seu presidente que se mete aqui a revelar a estratégia eleitoral do partido. Mas digo-lhe que a estratégia passa pelo trabalho. Procuramos estar em todo lado e tentar desmitificar a mentira que paira algures. Os adversários da FNLA dizem isso e aquilo, assado e cozido e até ao ponto de dizer que comia pessoas. Meu ilustre jovem, acredita que em Angola houvesse pessoas que comessem outras pessoas? Quem encontrou dirigentes da FNLA a comer pessoas? Isso foi dito em nome da luta política mas nunca alguém veio a público pedir desculpas sobre isso e desmentir ao povo angolano que foi um erro político conjuntural. Nunca a FNLA comeu pessoas.

Jornal de Angola – Olhando para o panorama sociocultural e político do país, partilha da ideia segundo a qual a juventude é tomada pelo medo e que por isso se acanha ante o curso das dinâmicas e desafios?

Lucas Ngonda – Acho que não é medo. O problema tem sido ditado pela conjuntura e o quadro em que esta juventude nasceu. A Paz só chegou aos lares dos angolanos em 2002. Ainda não é o tempo suficiente para desfazer os traumas. Depois da guerra, entramos num período da moralização das consciências em que tudo deve apontar para a paz, tranquilidade e harmonia nacional. Quem foi envolvido nos 27 anos de guerra civil é o jovem, mas hoje muitos são os pais que nem sequer sabem onde está a campa dos seus filhos. Na guerra feita pelos africanos, não há a dignificação das pessoas que lutam. Não sei se um dia haverá um monumento com o nome de todos aqueles que lutaram como acontece na Europa.

Jornal de Angola – Defende então a construção de monumentos em homenagem a todos os jovens que se bateram e lutaram pelo país?

Lucas Ngonda - Sim. Pelo menos dois memoriais, um da luta de libertação e outro da guerra civil. Mas aqui tudo fica entregue ao túmulo do soldado desconhecido. É triste. Hoje é fundamental que não fabriquemos mais um destino que leve a juventude a cometer erros. Precisamos uma preparação consciente e responsável do jovem angolano para que assuma as responsabilidades e assim interprete a nação de uma outra maneira. Deve perceber que esta não é a nação dos revoltados contra outros jovens e que se deve abandonar o espirito que sempre existiu em que o jovem da FNLA se coloca contra o jovem da UNITA e este contra o do MPLA. Não se cria nação desta forma. Temos de moralizar a juventude e dar-lhe esperança. Estamos num Estado democrático e de direito e por isso os jovens devem escrever e discutir os grandes problemas da nação, do seu futuro e de acordo com que pensam o que deve ser Angola do amanhã. Quando levam a juventude para maratonas para os embebedar, aí já não concordo. Devemos dar riqueza de ideias para que ela saiba julgar e definir o que pretende.

Jornal de Angola – Na sua visão, que soluções são necessárias para a erradicação do lixo em Luanda?

Lucas Ngonda – Nós viemos das gerações deixadas pelo colono e vimos como é eliminado o lixo no exterior. Não acho que as medidas tomadas pelo governador, de quem respeito bastante, vão ser a solução. Tem entusiasmo em dirigir, mas quem tem entusiasmo diz tudo e mais alguma coisa. A taxa do lixo passou por que instituição para ser analisada? E será que resolve o problema? Penso que não. O problema do lixo é estrutural. Basta olhar para o modo como as nossas cidades estão construídas e urbanizadas. Mas além disso, está o sistema ou estilo de vida das pessoas e os mercados que pululam em quase todos os cantos. Tudo isso revela um problema estrutural. Não é o governo da província a entidade mais indicada para tratar do lixo. Enquanto não tivermos as autarquias, o problema vai continuar a existir seja qual for o modelo a­doptado.Este é um modelo do partido único que se transferiu para estruturas democráticas. A solução passa pela criação de câmaras municipais e de infra-estruturas para tratar do lixo.

Jornal de Angola – Tem alguma coisa a acrescentar?

Lucas Ngonda – Apenas chamar atenção do povo angolano para a necessidade de se mobilizar para salvaguardar o interesse nacional e a memória colectiva daqueles que lutaram para libertar Angola.

Político e sociólogo

Lucas Mbengui Ngonda é o actual líder da Frente de Libertação Nacional de Angola (FNLA). Nasceu em 1940 em Sanza Pombo, na aldeia de Kimbengui Ngonda. Passou pelas missões evangélicas do Kikuni, Kikiama e passou parte da sua vida na missão de Kikaia, onde viria a fazer a quarta classe. Em 1957 veio a Luanda e viveu durante alguns anos na casa verde, na estrada da Brigada. Formado em Sociologia e especializado em Antropologia do Desenvolvimento, Lucas Ngonda é leitor assíduo de livros de história, sociologia, livros e artigos científicos, lembra que foi Simão Toco que o introduziu na leitura ao aconselhá-lo a ler tudo. Ofereceu-lhe um livro intitulado “Estrangular Invisível”. Tem uma admiração pela literatura africana e os seus autores, com destaque para Cheikh Anta Diop e Aimé Césaire. Guarda os livros de Frantz Fanon. “Ele previu tudo quanto a África vive na actualidade. Ele viria a escrever: “Os africanos estão a bater-se muito para se libertar, mas esperamos que não sejam eles os colonos de amanhã ”. Considera a literatura africana rica e revela a grande admiração pelo escritor nigeriano Wole Soyinka e pelos angolanos Wuanhenga Xitu com o livro “Ministro” e as obras de Rui Monteiro. Aprecia a música clássica e a africana, mas expressa o fascínio pela melodia árabe. Vê séries televisivas e uma de que não se esquece é “Os Incorruptiveis”. Fazem parte das suas preferências filmes de espionagem e o destaque recai para a longa-metragem “Cicero” e lembra: “Todo o político tem o seu Cicero. Tem sempre ao lado uma pessoa de confiança”. Lucas Ngonda aprecia o funge.

Via JA

Archivos

Ultimos Posts