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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


Na insurreição provocada pela UPA em 1961, o Padre Camilo comportou-se como um santo - Testemunha

Publicado por Muana Damba activado 24 Abril 2015, 05:05am

Etiquetas: #Coisas e gentes da Damba, #Fragmentos históricos da Damba, #Fragmentos históricos do Uíge.

Por Miguel Kiame (*)

Por ocasião dos acontecimentos de 1961 que abalaram profundamente a vida dos angolanos e dos colonialistas portugueses, eu era menino e moço, com sete anos de idade, acabados de completar dois dias após a eclosão do segundo ataque à vila da Damba.


Decorria o ano de 1961. De todos os lados, se recebiam os sinais de que qualquer coisa não estava bem. Embora crianças, dávamos conta da atmosfera densa que se vivia. Não sabíamos de que exactamente se tratava mas a evidência do mau agouro era tão intuitiva que os mais velhos eram incapazes de escamotear a dura realidade que se desenhava no horizonte.
Uma vez, depois de uns cochichos trocados entre o meu pai e alguns amigos seus, reparei que ele se dirigiu para o interior da casa. Senti também que ele não estava bem, parecia flutuar num vazio pútrido, não conseguindo esconder o seu inconformismo. Alimentado pela curiosidade que a situação estava a criar, fui, sorrateiramente, atrás dele e descobri que, fechado do quarto, estava a destilar lágrimas de fel, com soluços intermitentes. Perguntei ao pai o que se passava e ele respondeu-me: - “Mwan’ame e nsi yi ningini” Traduzido para o português: Meu, filho a terra estremeceu.

O meu pai estava inerte, parecia argamassa. Perdera a imaginação e audácia para encontrar a solução. Fui apressadamente avisar os meus irmãos que, por sinal, já dominavam a situação e me disseram que aquela atitude do pai resultava de um aperto do coração face ao recrudescimento da situação político-militar. As noites passaram a ser rastros de medo e de uma eternidade horripilante.


Não muito distante da nossa aldeia, havia grupos de homens a se prepararem para atacar a vila. Eram os primeiros ventos da luta pela independência!


A conversa que meu pai acabara de ter com os seus amigos era no sentido de colher consenso relativamente à postura a assumir face ao clima de verdadeira erupção sísmica que se avizinhava. Uns defendiam a fuga para a vizinha República do Congo (Kindyatu), outros a integração nas fileiras da UPA e um terceiro grupo que se distanciava dos dois primeiros, vale dizer, nem ir ao Kindyatu, nem integrar-se na UPA, embora correndo o risco fulminante de ser decapitado pelos colonialistas portugueses. Era um dilema insolúvel.


A Sanzala Saúde donde sou originário, era um aglomerado habitacional constituído, grosso modo, por funcionários da Saúde, uns poucos da Administração colonial e outros tantos dos comerciantes. Por este facto, o embaraço que nós vivíamos em casa, era transversal à maioria das famílias. Portanto, as comunidades circunvizinhas da Vila sofreram, duplamente, porque estavam, na realidade, debaixo de fogo cruzado. Para a UPA eram consideradas de aliadas dos brancos ao passo que para os brancos eram tidos como terroristas.


A nossa sorte repousava nas mãos do senhor padre Camilo, missionário de nacionalidade italiana, verdadeiro Homem Santo de Deus. Nas circunstâncias em que nos encontrávamos de guerra declarada, o mais fácil para ele seria pegar no carro e ir a Luanda a espera que a situação se resolvesse, como aliás aconteceu com as irmãs da Misericórdia, da Missão Feminina da Damba. Padre Camilo, muito atento ao sofrimento do seu povo, não teve meias medidas para se impor a todos, de peito aberto, com o intuito de salvar o maior número possível de pessoas. Foi assim que decidiu acantonar-nos na Igreja da Vila. Éramos perto de uma centena de pessoas. Só um santo da dimensão do padre Camilo, um missionário destemido com uma bravura ímpar, dotado de um estoicismo invulgar seria capaz de enfrentar aquela dupla batalha campal, num campo perfeitamente cruzado: de um lado, os homens da Upa, alimentados não sei de que tipo de ideologia, e do outro, os colonialistas sequiosos da manutenção do estado salazarista, a ferro e fogo.


Dias antes da tomada da histórica decisão pelo padre Camilo, um vizinho nosso, o Sr. Pedro Magalhães, fora sequestrado pelos colonialistas, a partir da igreja da missão, em plena celebração eucarística. Tomamos conhecimento mais tarde, que fora friamente executado, a caminho de Maquela do Zombo. A mesma sorte estava também a ser urdida pelos comerciantes e autoridades administrativas coloniais para o meu irmão. Aliás, se não fosse a pronta intervenção do Padre Camilo ele teria sido sequestrado pelos mesmos que vinham nele um perigo iminente, um homem terrorista e por cima formado, por isso, constituía, na óptica dos colonos, um perigo a não subestimar. Viveu-se um período de debandada total, caracterizado por ânsias intermináveis que não davam tréguas a ninguém.


Um ilustre professor da Missão Católica, o primeiro professor de posto escolar diplomado da Damba, de nome Castelo, conheceu idêntico destino. O professor dirigia-se ao Nsala Mbongi, com o intuito de recolher a família e juntar-se ao grupo na Igreja da vila. Caiu numa emboscada da Upa e, imediatamente, feito troféu de guerra. Fora executado com um requinte paranóico por indivíduos que se diziam libertadores de Angola. Um auxiliar de enfermagem, que frequentava muito a casa dos meus pais, foi igualmente degolado pelos integrantes das fileiras da UPA, inexplicavelmente. Qualquer coisa errada pairava nas mentes dos militantes da UPA. Como entender o assassinato desses quadros autóctones? Este foi o presságio de que com esse tipo de postura a UPA não iria a lado nenhum. Aliás, o presente está a testemunhar essa derrocada com infindáveis guerras intestinais de políticos cuja geração está fase galopante de extinção.


A Igreja da Vila foi a nossa casa comum. O seu pequeno pátio, cercado de arame farpado, qual campo de concentração nazi, era o recinto para as brincadeiras, era também a cozinha comum das nossas velhas, era a lavandaria geral, era o local onde, em determinadas alturas do dia, apanhávamos banhos de sol após a queda das chuvas copiosas e frias que caracterizam a Damba nos meses de Março a Maio. A vivência na Igreja foi uma experiência extraordinária. Tendo em atenção o nível de periculosidade do momento, o senhor padre Camilo organizou o baptismo geral para todas as crianças que ainda careciam dessa graça de Deus. Fui um dos felizes contemplados.


A nossa rotina diária começava com a participação da missa matinal, finda a qual tomávamos o pequeno-almoço. Para nós, os miúdos, estava aberto o campo para as mais variadas brincadeiras. A percepção que tínhamos da situação, cuja indiferença tocava os limites do absoluto, permitia-nos estar a vontade e preencher o tempo na maior das tranquilidades. O futebol foi sempre a modalidade rainha. Ao meio-dia, a nossa actividade lúdica era interrompida para que rezássemos o “Angelus”. A tarde, prosseguíamos até por volta das 17 horas, altura do toque do recolher.


A beleza da adolescência reside no facto de viver profusamente a vida. A fronteira entre a normalidade e o perigo é bastante ténue. Então, todos nós comprazíamo-nos nessa espécie de bebedeira porque a mesma bebedeira também nos protegia da crueldade dessa realidade tão atroz. Vivíamos completamente a leste de toda essa amargura que endoidecia os nossos progenitores e o abnegado padre Camilo que tinha sob os seus ombros o peso de mais de uma centena de vidas confinadas numa pequena igreja. Estávamos em tempo de guerra e, frequentemente, tocava a sineta que nos sacudia num relâmpago de pânico.
- Ataque, recolher!


E lá íamos todos, de súbito, a entrar pela igreja adentro, numa confusão que lembra a torre de Babel. Se o toque fosse accionado próximo da hora da refeição, a baralhada era pior. Pessoas a entrar com panelas a ferver, comida por cozer, roupa por lavar, tudo por fazer. Nessas ocasiões, um vento quase sobrenatural fazia-nos sair das nossas órbitas e aí sim, reconhecíamos que, na verdade, estávamos em tempo de guerra. Até agora indago-me a que se deviam aqueles comportamentos ordeiros de adultos e crianças. Quando chegasse a hora do toque da sineta, anunciando um ataque iminente, todos ficavam quietos. As convulsões intestinais próprias dessas alturas esfumavam-se, a ronha das crianças mimosas e respectivas choradeiras desapareciam. Só uma voz, distante mas presente, grave mas perceptível a dimensão da nave, se fazia ouvir. Sua postura imperturbável era igualmente presente e visível. Não estava dominado pelo rancor de qualquer espécie, mas paralisado pela responsabilidade que o momento impunha. Então, com a sua voz angélica, convidava todos a oração.
- Meus filhos, vamos orar.


Dia seguinte, ressurgíamos das cinzas com uma vitalidade fortalecida, como se nada tivesse acontecido na véspera. E lá estávamos nós novamente na folia.


Com o passar do tempo, os adultos que partilhavam connosco o acantonamento na simbólica igreja da vila, passaram a ser requisitados para execução de alguns trabalhos camarários, a saber, enterrar os mortos, capinar a principal artéria da vila e áreas circunvizinhas e o aeródromo. Todo esse trabalho era feito sob estreita vigilância dos representantes da máquina colonial. Por isso, para salvaguardar a integridade física do pessoal, o senhor padre Camilo jamais poderia estar ausente, sob pena de a maior parte ser dizimada pelos colonialistas. A confiança já havia sido esfumada da névoa da sua memória, tal era a gana que alimentavam aqueles espíritos coloniais e sanguinolentos.


No fragor da batalha, depois de diagnosticada alguma capacidade interventiva do pessoal da Upa pelas autoridades coloniais, estes não tiveram outra alternativa senão introduzir a aviação e tropas regulares do exército. Mas antes do aparecimento das tropas de infantaria, a população autóctone sofreu as mais sórdidas condições, chafurdando na indignidade da morte. A aviação utilizava aparelhos de pequeno porte e com nítida facilidade de manobra. Giravam pelas aldeias a procura de qualquer vivalma que tentasse movimentar-se. Mal deparassem com as populações, o avião ia apanhar o balanço e altura e logo num movimento descendente voltava em direcção ao alvo e há poucos metros do solo levantava o voo e largava os mortíferos artefactos que por detrás do seu trovão semeavam a morte e a desolação das pacatas populações cujo crime era o facto de simplesmente terem nascido em Angola e não se identificarem com os ideais salazaristas.


Na localidade de Nzunga, cerca de 20 km da Damba, depois de um bombardeamento atroz, uma mãe ficou mortalmente ferida mantendo a criança em vida, amarrada nas costas. Essa criança, agora uma adulta, perdeu, irreversivelmente, a fala e a audição.


Do pátio da igreja, visualizávamos, ao vivo e ao pormenor, alguns desses bombardeamentos que faziam doer, sobremodo, as entranhas daqueles cujas famílias eram residentes nas áreas em flagelação. Esta actividade decorreu durante vários dias, no espaço horário compreendido entre as 10 e as 16 horas. São raras as aldeias que não foram violentadas e queimadas. Foi o que se chamou de política de terra queimada.


Volvido algum tempo, apareceram os primeiros batalhões da tropa colonial. Diga-se, em abono da verdade, que havia muitos militares portugueses que não se identificavam com a guerra colonial, manifestando uma autêntica postura jovial e primaveril enquanto outros se comportavam como autênticos verdugos, geralmente de tez sisuda e olhar permanentemente desconfiado. Os batalhões que integravam cabo-verdianos não se livraram de uma justa reputação de verdadeiros algozes.


Uma vez, meu pai deslocara-se ao Kazumbi, para as exéquias fúnebres de um familiar, acompanhado de três das minhas irmãs. Terminada a cerimónia do óbito, decidiu regressar a casa. Um primo seu que também assistira o óbito, resolveu juntar-se ao grupo. Na hora da partida, o referido primo entendeu carregar dois tubos galvanizados, do tipo que ainda se utiliza para canalização de água. Enquanto amarrava os tubos, passou por eles uma viatura com militares cabo-verdianos. Quando os militares se aperceberam da existência dos tubos pararam de repente o carro. Com sotaque genuíno cabo-verdiano e português acrioulado, indagaram os velhos para saber que destino se daria àqueles tubos. A explicação dada não foi nem aceite nem convincente para os militares catanhôs. Na óptica dos ilhéus ao serviço de Salazar, os tubos seriam utilizados para fabricação de canhangulos para combater o regime, por isso, estava encontrado o fundamento e a matéria do crime para prender mais dois terroristas, no caso, o meu pai e o primo dele. Para fazer jus ao seu carisma de tropa tenebrosa, os cabo-verdianos encetaram imediatamente uma sessão desenfreada de pancadaria aos coitadinhos. Atiraram-nos por cima do camião e partiram com eles rumo à vila, que dista daquele local cerca de 15 quilómetros. As minhas irmãs, assediadas pelo pavor que a situação inspirava, meteram-se em marcha de corrida desregrada e contínua e só pararam na Missão Católica onde se encontrava o padre Camilo. Padre Camilo como sobejamente referido era a tábua de salvação, sempre disponível para todos os males. Quase desmaiaram pelo esforço ansioso e desmedido. A muito custo, o padre se apercebeu que os militares haviam prendido o pai porque elas só gritavam: “Eku papê, padre Camilo, eku papê …”. Com o jeep da Missão seguiram até ao Quartel onde encontraram os dois homens acorrentados a caminho dos calaboiços. Mais uma vez a intervenção providencial do padre, salvou a vida ao pai e seu primo. Pois, a grande maioria de cabo-verdianos, componentes dos batalhões mistos, isto é, compostos de portugueses e cabo-verdianos, sempre alimentou uma altivez de frivolidade provinciana e estúpida, considerando-se muitos deles não como africanos mas simplesmente como cabo-verdianos. Reside aí o facto de muitos deles quererem ser mais portugueses do que o próprio Salazar.

Continua...

(*) Na ocasião do 54° aniversário da Batalha da Damba, o grupo ANADAMBA/facebook, promove um debate de ideias sobre o evento. O presente texto é a reacção do Professor Miguel Kiame sobre o ataque do dia 2 de Maio de 1961. ( consulta a seguinte ligação). O autor do texto é natural do bairro da Saúde/Kinteka, na periferia da vila da Damba, é testemunho vivo desta batalha, em que um padre de nacinalidade italiana perdeu a vida.

Carlos Alberto, o homem que salvou a bandeira portuguesa nas mâos da UPA e Adriano Moreira, minstro de Ultramar em visita à vila da Damba, em 1961, depois dos ataques infrútiferos dos sublevados contra a administração colonial.

Carlos Alberto, o homem que salvou a bandeira portuguesa nas mâos da UPA e Adriano Moreira, minstro de Ultramar em visita à vila da Damba, em 1961, depois dos ataques infrútiferos dos sublevados contra a administração colonial.

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